a cidade e o território em debate na flip

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A mesa foi composta pelo antropólogo baiano Antonio Risério – que lançou recentemente o livro A mulher, a casa e a cidade – e pelo poeta e professor Eucanaã Ferraz, autor de uma tese de doutorado sobre a relação entre poesia e arquitetura

por Alexandre Pimentel

O antropólogo começou analisando o duplo significado dos centros antigos nas grandes cidades, pois são “duas cidades funcionando dentro de uma, o que leva a um terceiro modelo de cidade possível: “a cidade que queremos construir”. Uma cidade “nem moderna/ capitalista, nem barroca/ escravista.” Para ele, os centros antigos falam do passado, mas podem apontar o futuro, que outras cidades são possíveis. Preservá-los, portanto, seria uma missão de todos num contexto em que avança a segregação socioterritorial.  O centro antigo (que não é um distrito qualquer para a população), assim como as linhas de mar são indissociáveis da memória estética do lugar, e indicam uma identidade física que deve ser preservada.

Nesse contexto de expansão urbana, onde a ação estatal e as forças do mercado afastam e segregam, aprofundando as desigualdades, nenhuma cidade pode se manter saudável. Os fetiches da “multiplicidade” e da “horizontalidade” dificultam a organização de uma narrativa e de uma heresia comum. Para o antropólogo não é mais tempo de se sonhar a cidade ideal (como para os modernistas), pois é necessário pensar a sobrevivência. Segundo ele, não existiria uma catástrofe a caminho: já estaríamos nela.

Eucanaã Ferraz apontou a necessidade de pensar o urbanismo não mais como totalidade projetável, mas pela multiplicidade, onde seria necessário romper a ideia de inteiriço e reconhecer fragmentos e diferentes territórios. Apontou a influência da vanguarda europeia, especialmente a francesa, sobre Mário de Andrade, que acompanharia atentamente suas ideias e publicações. Arte e cidade deveriam sempre estar em diálogo permanente.

Eucanaã leu trechos de poemas de Mario de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade entre outros autores, e apontou um mal-estar entre os poetas modernos e a cidade. O poeta quer estar na cidade, a quer como força atuante, mas com certa desconfiança ou desconforto. O poeta no século XX, numa posição pós-Baudelaire e a “perda da aura”, perde o traço que o singularizava e o distanciava de outros homens.

Ao final o poeta apontou que a poesia se põe como valor entre outros valores na cidade. Ela teria um papel no urbanismo – embora não idealizado, não propositivo, nem programático.

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