da memória à matéria

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Por meio de mapa afetivo construido coletivamente, oficina de fotografia em Paraty dá forma às lembranças de moradores da cidade

Nas redes sociais do século 21, portas e janelas coloridas, ruas de pedra e igrejas carismáticas tornam Paraty uma das cidades mais fotografáveis do país, mas é nas entranhas da memória afetiva de seu povo que se escondem as imagens mais belas da cidade.

Buscando resgatar essas memórias e transformá-las em algo palpável, o fotógrafo Walter Craveiro ministra a oficina Redescobrindo Paraty: fotografia, história e memória, iniciativa que faz parte da primeira ação pública do Museu do Território de Paraty. O objetivo do curso é construir um mapa afetivo da cidade por meio do resgate da memória dos participantes e de fotos e objetos antigos.

O segundo módulo do curso acontece dia no dia 27/02, das 15h às 17h, e dia 28/02, das 9h às 11h (saída a campo), das 15h às 17h e das 20h às 21h, quando acontece o encerramento no antigo cinema de Paraty. Confira abaixo entrevista com Walter Craveiro sobre a ação.

O que é um mapa afetivo?

Fazer uma mapa afetivo é fazer uma construção coletiva. Definida uma região, no caso a cidade de Paraty, com todos os seus bairros, incluindo o centro histórico, traçamos em um mural um grande mapa. A partir daí, todos os integrantes da oficina vão marcando nele os pontos geográficos onde aconteceram as suas memórias e histórias. Como, por exemplo, a casa onde cada um morou, a escola onde estudou, onde conheceu o(a) namorado(a) e assim por diante.

Em um segundo momento, solicitamos que os participantes trouxessem fotos antigas de família que ilustrassem o que foi falado e marcado no mapa. Essas fotos foram digitalizadas, projetadas e apresentadas por quem a trouxe. Um mapa assim construído materializa simbolicamente a ocupação de cada participante em um lugar e espaço de tempo na cidade de Paraty. Marca também as interrelações deste grupo.

Para você, por que o resgate da memória de Paraty é importante?

Apesar de toda sua riqueza histórica, Paraty vive hoje, como toda sociedade contemporânea, a questão da perda do interesse de boa parte de sua população mais jovem pelas memórias e tradições contadas pelos mais velhos.

Se perdermos esse elo com as gerações mais velhas, boa parte do conhecimento que faz de Paraty uma cidade e não um cenário com casario colonial irá desaparecer. A música local, a construção de instrumentos, a pesca, as festas populares, a carpintaria, a culinária, entre outros exemplos, são transmitidos pessoalmente, de geração para geração. Daí a importância da preservação da memória de Paraty.

Como você avalia o resultado da oficina?

O resultado foi muito bom. Na verdade, me surpreendeu. Houve um grande envolvimento e alguns jovens participantes tinham um grande conhecimento da história e tradições da cidade. Eles partilharam seus saberes com todos, enriquecendo muito nossa experiência. Terminamos todos a oficina com uma visão muito mais rica de Paraty e sua história.

Pode destacar alguma peça que foi levada/história que foi contada pelos participantes?

Nas fotos de infância de alguns integrantes, em um passado ainda recente, notamos a grande mudança que houve na praia do Pontal. Algumas histórias “extraordinárias” também surgiram. Foi o caso da noiva que faleceu na véspera do casamento. Seu noivo, a partir de então, sonhava que ela tinha sede. Um dia foram exumar o corpo e encontraram o caixão todo arranhado.

Como será a segunda etapa da oficina, em fevereiro?

Na segunda etapa vamos explorar fotograficamente os locais que marcamos no mapa. Será uma oficina de fotografia de rua, e as técnicas e táticas desse tipo de fotografia serão discutidas e colocadas em prática.

Você fotografou Paraty extensivamente nos últimos anos. Que aspectos da cidade mais o atraem como fotógrafo?

O grande atrativo da Paraty a ser fotografada é também o seu maior desafio. Explico. O conjunto de casario colonial da Paraty do centro histórico é tão harmonioso e bonito que em um primeiro momento vemos apenas ele como objeto fotográfico. Assim, o risco de fotografar o que já foi fotografado extensivamente, criando dessa maneira uma espécie de cartão postal, uma visão clichê da cidade histórica de Paraty, é muito grande.

É preciso ultrapassar essa primeira barreira para perceber a diversidade e a riqueza cultural das pessoas que vivem e ocupam as ruas de Paraty durante o ano inteiro. Eu costumo fotografar, como trabalho pessoal, pelas manhãs. Durante os dias da oficina encontrei um novo tema que pretendo explorar. Paraty logo cedo é deserta de pessoas, exceto por aqueles que trabalham, como as varredoras de rua e aqueles que ainda não foram dormir. Um bom tema e agora sim dentro de um cenário espetacular.

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