em busca da comida de raiz

fazenda 1@ matheus augusto

“Temos uma elite que come coisas afrancesadas mas gosta mesmo é de leitão”, critica sociólogo Carlos Alberto Dória

Seu Zé Ferreira pode ser considerado um visionário: natural de Pernambuco, filho de agricultores, se mudou para Paraty em meados dos anos 1980, quando se fascinou pelo solo fértil da cidade. Três décadas depois e sem estudo formal – “nunca me conformei com o discurso, sempre tirei minha noção de desenvolvimento vendo o caboclo com a mão na massa” –, é hoje referência internacional em práticas agroecológicas.

Em debate nesta sexta-feira (2) na mostra Histórias e Ofícios do Território, do Museu do Território de Paraty, contou que, com a queda do comércio da banana, vendo os colegas agricultores migrarem em busca de novos trabalhos, fez o caminho oposto: mergulhou em busca de formas de permanecer perto do solo. Encontrou um engenheiro agroflorestal e aprendeu com ele alternativas que o levaram a optar por diversificar sua produção.

“Por incrível que pareça, desde o primeiro contato com aquilo, percebi algo cultural: não era uma técnica nova, mas um resgate das técnicas tradicionais. O plano era sustentar minha família dependendo o mínimo possível do mercado – ou seja, produzir diversificado para não depender de dinheiro. Era a nossa libertação”, disse. E deu certo.

Ao lado de Zé Ferreira, Carlos Alberto Dória, sociólogo e autor de Formação da culinária brasileira (Editora Três Estrelas), criticou o desconhecimento sobre a culinária efetivamente brasileira. “Temos que ‘desgastronomizar’ nossas mentes. O excesso de glamour é prejudicial ao conhecimento da cultura local. Se sairmos andando por aí, não veremos uma culinária local, mas global. Isso aponta no sentido do empobrecimento e da descaracterização cultural.”

E acrescentou: “Se o poder público valorizar produções como a do Seu Zé e criar um orgulho local, estará fazendo mais pela culinária brasileira do que plantar restaurantes moderninhos para atrair turistas. Temos no Brasil uma literatura quase toda de fontes secundárias. Não podemos nos satisfazer com cadernos de receita, com o que é apreciado pela indústria editorial. Falta uma perspectiva antropológica”.

Reiterando a ideia, Ferreira chamou a atenção para a vergonha de alguns paratienses de sua tradição e costumes, exemplificando que estrangeiros que vão à cidade procuram sua fazenda alegando que a alimentação em Paraty é muito parecida com a de seus respectivos países de origem. “As pessoas esperam encontrar coisas que sejam da raiz da cidade, mas encontram coisas que nada têm a ver com nossa realidade, o que acaba com a nossa cultura. Precisamos estar conscientes disso”, disse.

Dória, em seguida, provocou: “Existe a invenção da baianidade, da mineiridade e agora estamos assistindo à invenção da amazonidade. Em relação à cultura caipira o problema é o oposto, há uma tradição de vergonha. Temos vários exemplos de uma culinária dual, de uma elite que consome coisas afrancesadas, uma culinária de salão, mas gosta mesmo é de comer leitão”.

Para visitar
Agloforesta Sítio São José
Rod. Rio-Santos km 547,5 – R. Sertão do Taquari s/n
Paraty, RJ
www.agrositiosaojose.blogspot.com.br
ferreiraecologia@hotmail.com

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.