entre saudosismos e permanências

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Especialistas vindos de fora e nativos de Paraty debatem as heranças culturais da cidade, que continua a perceber seu tempo a partir das batidas do sino da igreja

“O patrimônio de pedra e cal está aí, mas e as cadeiras na calçada? E as conversas?”, questiona André Bazzanella (foto), técnico do Iphan na Costa Verde do RJ, na sessão de abertura da jornada de debates Histórias e Ofícios do Território, do Museu do Território de Paraty. Para ele, a relação de dependência entre o patrimônio material e imaterial é muito forte – um dá sentido e significado ao outro. “O território vem sendo construído ao longo dos séculos por diversos povoadores e culturas”, diz, ressaltando a diversidade do patrimônio imaterial.

“Cada um tem relações de identidade diferentes com o espaço – com o mágico, o sagrado, a memória, os costumes – que são invisíveis e inacessíveis para quem é de fora. Precisávamos disso: contar a cidade enquanto território. Quem vem de fora não vê só o conjunto arquitetônico, mas também a cidade vivida. Paraty é uma cidade histórica e com história”, diz.

Para Mauro Munhoz, arquiteto e diretor-presidente da Associação Casa Azul, que realiza o Museu do Território de Paraty, existe um choque entre as culturas do presente e do passado: “É como se fossem duas engrenagens girando em velocidades diferentes. Quando se encontram, há atrito, um choque profundo. Se a onda que vem de fora é forte e não se pode evitar, temos que alimentar e fortalecer a outra onda, a que está mais conectada com a vida das pessoas”.

Em resposta a uma pergunta da plateia sobre qual a melhor maneira de criar uma barreira à onda de fora, Munhoz assinala a importância da experiência compartilhada: “As ações que estão se enraizando em Paraty mostram que é possível criar uma rede. O Museu do Território, por exemplo, tomou a decisão de não ter sede, pois só tem relevância se for construído com parcerias. As estruturas têm que ser flexíveis, transformadoras, se agregar e se adaptar. Imagine uma onda com uma folha de palmeira em cima. A onda vai passar e a folha vai subir, descer e sobreviver. Se você estiver brigando com a onda, você vai levar um caldo. A gente precisa pensar em construção de rede. E fazer coisas tão finas, qualificadas e elegantes quanto as que vemos nos depoimentos da velha guarda de Paraty. Está aí a solução”.

Ainda na plateia, o artista paratiense Jubileu relembra “as ruas cheias de crianças e os velhinhos nas janelas com cortinas de chitão”, e diz que o saudosismo dos mais antigos é que faz com que a cidade pareça estar pior. “Sinto prazer em saber que tem gente disposta a resgatar toda essa memória para que a gente preserve nosso modo de viver, nosso bem imaterial. Na minha época de criança a gente sabia dessas histórias todas. Nós paratienses temos que resistir, pegar as coisas da nossa infância e reavê-las para mostrar às novas gerações como éramos e como podemos continuar sendo.”

De modo similar, a pesquisadora Cristina Lodi também citou o saudosismo e a preservação da cultura: “Estou feliz porque tenho percebido que, ao invés de ficar no movimento saudosista, estamos começando a ver quais são as permanências que se perpetuaram no tempo e no espaço. A Festa do Divino continua sendo um rito de passagem para os meninos. A cidade ainda continua a perceber o seu tempo a partir das batidas do sino da Matriz”, diz.

Por fim, o comendador e jornalista Antonio Conti deu um testemunho emocionado, contagiando todos a seu redor. “Eu não poderia deixar, nos meus 85 anos como paratiense, nascido aqui no fundo dessa rua, de demonstrar minha alegria. Aos 10 anos papai perguntou o que eu mais queria na minha vida. Eu disse ‘eu quero uma canoa; de barco não vou’. Ele me deu a canoa. Na maré cheia, eu entrava na cidade remando. E eu estou vendo vocês lutando para que volte aquela tradição de amor pela nossa terra. Eu sempre pensei nisso, que um dia ia voltar nosso passado de amor à terra. É isso o que vocês estão fazendo.”

E prosseguiu: “a cidade vivia só dos produtos da cidade – galinha caipira, aipim, café de caldo de cana. Tinha cheiro de café na rua. Era café de manhã e às três horas da tarde. Eu continuo mantendo essa tradição. Trazendo a tradição nós vamos trazer um amor ferrenho à nossa terra. Quero dizer a vocês: parabéns. São brasileiros que eu considero como paratienses, lutando pela tradição da minha terra. São essas as minhas palavras”.

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