exposição multimídia itinerante

Não há registro de que Mário de Andrade (1893-1945), o autor homenageado da Flip 2015, tenha visitado Paraty. E sabemos que o pernambucano Gilberto Freyre ironizou, nos anos 1930, os paulistas e cariocas que falavam em preservar as tradições do Norte e do Nordeste sem terem se lembrado de um tesouro escondido em seu quintal:
a cidade de Paraty.

Vistos em retrospectiva, porém, os destinos de Paraty e Mário parecem inseparáveis. Indiretamente, devemos a preservação do patrimônio arquitetônico paratiense à orientação dada por Mário para o Sphan, embrião do atual Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Devemos a ele sobretudo a nossa concepção de patrimônio imaterial, isto é, a visão generosa sobre as atividades humanas que fazem da cidade e do entorno um vibrante território social e cultural.

Esta exposição audiovisual faz uma tripla narrativa para entrelaçar a vida e as ideias de Mário, a história de Paraty ao longo do século 20 e as memórias da comunidade. A matéria-prima são fotos produzidas por Mário em suas viagens, acervos fotográficos das famílias da cidade e os depoimentos recolhidos no ciclo Histórias e Ofícios do Território.

Em três monitores de TV instalados na Casa da Cultura, as fotos das viagens etnográficas de Mário de Andrade, celebrizadas no livro O turista aprendiz, as imagens dos acervos paratienses e os depoimentos dialogam entre si e fornecem pontos de vista subjetivos sobre a nossa história. Torna-se possível imaginar como seriam os passos de Mário no Centro Histórico.

Não é difícil ver o escritor se derretendo pelas casinhas e sobradões, encantando-se com a pedra e as imagens religiosas das igrejas, ouvindo a conversa da tarde nas janelas e calçadas, festejando as cirandas e tradições culturais na Festa do Divino, misturando-se às crianças na Praça da Matriz, se banhando feliz nas praias de Paraty.

Se o Brasil que Mário conheceu começou a se transformar radicalmente logo após a sua morte, em 1945, por aqui ele durou um pouco mais – pelo menos enquanto a cidade se manteve isolada. Nos anos 1970 a vida moderna desembarcou no embalo da rodovia e um novo ciclo econômico se iniciava.

Paulo Werneck, curador

 na Casa da Cultura de Paraty


 na sede do Iphan


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