o verdadeiro valor artístico

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O paratiense Julio Paraty e o paulista Paulo Pasta falam do ofício de pintor durante a mostra Histórias e Ofícios do Território

Quando criança, Julio Paraty pegava o lápis de sobrancelha e o batom da mãe, a tampa das caixas de sapato que dona Josephina, da loja atrás de sua casa, jogava fora, e rabiscava nuvens. Já o paulista Paulo Pasta, que se encantou com os fascículos de Gênios da pintura que sua mãe comprara, teve em Cézanne a inspiração para seu primeiro quadro: duas maçãs. Embora com raízes diferentes, desde cedo ambos sabiam de sua vocação para serem pintores. Foi esse o assunto que abordaram neste sábado (6) na mostra Histórias e Ofícios do Território, promovida pelo Museu do Território de Paraty.

Julio Paraty relembrou a influência de dois grandes artistas paratienses no início de sua carreira: “O Zé Kleber sacou que eu tinha alguma coisa. ‘Você é um pintor!’, ele me dizia quando eu era criança. Nunca vou esquecer. E a Djanira um dia me chamou pra pintar com guache: ‘bate bem, como se estivesse batendo um bolo’. Nunca vou esquecer dela dizendo isso”.

Enérgico, comentou o fato de sempre o encomendarem pinturas de suas famosas “bandeirinhas”: “É até mais fácil, mas não há nada como fazer o que você quer, com sentimento. Infelizmente, acho que vou ter que fazê-las a vida inteira, porque vivo disso, é o meu ganha pão. Já disse todos os ‘nãos’ que podia para a vida inteira. Hoje, calado estou. Ainda bem que eu parei de beber, senão morria com a minha língua”, brincou.

Em seguida, Pasta, que também é autor do livro A educação pela pintura (Martins Fontes) e professor, falou sobre o ensino de técnica: “Não existe uma só, cada um tem a sua. Você a individualiza a partir da necessidade da sua expressão. É isso o que tento ensinar aos alunos. Caso contrário, estamos condenados ao academismo. Antes, você podia ensinar técnicas, mas como fazer isso com arte moderna? O principal é oferecer meios de incentivo à pintura”.

Além disso, falou sobre a inversão de valores na arte contemporânea: “Hoje o mercado toma o lugar da reflexão, é ele quem dita a regra. Se o artista está vendendo, não há crítica, pois quem o está validando é o mercado. Isso é triste. O valor do mercado é o dinheiro, não há valor artístico”. Sobre seu próprio trabalho, avaliou: “Minha identidade toda é construída junto da pintura. O Iberê [Camargo] se chamava de homem-pintor. Guardadas as devidas proporções, me considero também”. E fechou com uma frase de Cézanne “Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim”.

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