oceano reestruturado

peixes 2@ matheus augusto

Especialistas alertam para a exploração excessiva dos estoques peixeiros e a necessidade do resgate da pesca artesanal

“O mar, misterioso mar, que vem do horizonte, é o berço das sereias, lendário e fascinante”, diz um famoso samba-enredo carioca dos anos 1970. Provocador de medo e fascínio, o mar foi tema do terceiro debate da mostra Histórias e Ofícios do Território, promovida pelo Museu do Território de Paraty, nesta sexta-feira (5). “Nossa ignorância sobre a diversidade do oceano é profunda”, disse Rodrigo Leão de Moura, professor de biologia marinha da UFRJ, destacando que, enquanto a Lua e Marte já foram 100% mapeados, o oceano da Terra só o foi em 5%.

Moura também alertou que 85% dos estoques peixeiros do mundo já estão sendo utilizados em seu volume máximo, e que já foram consumidos 90% da biomassa de peixes predadores em escala global. “O consumo tem que ser diminuído, não temos condições de suprir. Estamos vendo a exploração excessiva reestruturar todo o funcionamento do oceano”, disse, observando que o consumidor não tem nenhum instrumento para se orientar com relação ao que é saudável e ao que é sustentável: “Acho que é uma grande questão a ser trabalhada no Brasil. É um problema, mas também uma oportunidade”.

E completou: “Ainda precisamos de uma boa cartografia do oceano, que valorize o conhecimento que os mais antigos têm sobre onde eram os criadouros e as áreas de desova, e que também se preocupe em proteger e estabelecer os territórios de pesca artesanal, para que possamos resgatar técnicas que estabeleciam uma boa convivência com os recursos naturais”.

Ao lado dele, Almir Tã – pescador, artesão e líder comunitário da Ilha do Araújo, autor do livro Cultura caiçara (editora Linha D’água) – diz que, além do consumidor, o pescador também foi causador da escassez: “Em Paraty, todos viviam da pesca e da agricultura. Mas, depois da chegada da Rio-Santos, com a possibilidade de escoar a mercadoria, o pessoal pescava 3 ou 4 toneladas de cação por dia. Hoje, você vai pra Ilha Grande para pegar 15 ou 20 kg”.

Por fim, Moura destacou a ligação de Paraty com as espécies marinhas – a maioria das 63 ilhas ao seu redor levam nome de peixe. “Acho que seria de enorme relevância tentar resgatar os elementos da pesca artesanal. O que estamos vendo é o resultado de uma depleção quase completa, de peixes pequenos, que não crescem muito, ou que têm um ciclo de vida muito rápido. A maioria dos peixes que dão nome às ilhas já se foi”.

 

 

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.